CAMINHANDO ENTRE A PULSÃO E O AMOR

Ricardo Dih Ribeiro

Ricardo Dih Ribeiro Publicado 11/10/2021 


Se pararmos para observar a maneira com que a sociedade atual se estrutura, a psicanálise representa um abalo na percepção humana. Como Freud dizia, seu alvo de estudo deixaria marcas na civilização, uma espécie de ferida narcísica, afetando o até então estabelecido e dito como “normal” no comportamento humano, mostrando que não somos senhores nem dentro de nossa própria casa.


Dentro de nós habita uma “Coisa”, acéfala, que não conhece limites e não se intimida com barreiras. Tem como alvo o prazer e a satisfação, independente do que a moral vigente propõe, ou até mesmo mesmo, impõem. M. A. Coutinho Jorge, em um texto de seu livro “Fundamentos da Psicanálise, vol. 3, A Prática Analítica”, traz como exemplo um filme chamado “De olhos bem fechados” de Stanley Kubrick, onde apresenta a problemática desta Coisa, chamada Pulsão.


Em resumo, conta a história de um casal, Alice e Bill, onde experimentavam uma vida amorosa serena e feliz, quando então o acaso os fez observar o que se esconde por debaixo do véu do amor. Em uma festa, Alice foi alvo da sedução de um galanteador húngaro, que lhe diz durante a tentativa de conquista: “Você não acha que um dos encantos do casamento é tornar o fingimento uma necessidade para ambas as partes?”. Pergunta profunda e inquietante, que acabou levando o casal a transitar por partes obscuras de suas almas, que andavam ao lado à rotina do dia a dia, mas de alguma forma não era vista.
Alice conta à Bill sobre o ocorrido, este fica imensamente abalado. Algo é tocado dentro dele, uma mistura de angústia e desejo. Bill por sua vez, na busca alívio para sua tensão, entra de penetra em uma festa semelhante aos antigos cultos à fertilidade, onde os corpos estão expostos, e a vida é celebrada. Porém, do outro lado da vida existe a morte e a destruição, e durante esta festa, tragédias deste tipos ocorrem.


Depois de todo o acontecido, Alice e Bill voltam a se amar, mas agora, ambos sabem o que existe no âmago um do outro, e nunca mais esquecerão.


Esse filme nos mostra um pouco do que existe dentro de nós. Essa “Coisa” quer algo mais, e não vem do que chamamos de Eu, mas sim de um Isso, desconhecido e indomável. Esta força, como um animal selvagem, muitas vezes abala as estruturas do nosso Eu, e vai embora deixando suas pegadas.


Será o Amor o afeto que nos protege de nosso mais irrefreável desejo? Será ele uma mascara que nos da segurança diante do desconhecido? Será o amor que nos permite ter um lugar seguro dentro do coração do Outro?
Eu não sei, mas me pergunto: Será que deveria ser diferente?
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Philipe G. – Reflexões sobre Pulsão, Amor e Relacionamentos.

 

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