"O HOMEM QUE NÃO SE DESVENDA VIVE EM SUA CEGUEIRA"

Ricardo Dih Ribeiro

Ricardo Dih Ribeiro Publicado 11/10/2021 


O homem atual, venda-se a cada dia mais, tentando esconder de si mesmo suas angustias, tentando seguir o padrão social de que ser isso ou aquilo é o que é importante. De que ter algo o tornará menos miserável em sua existência (que necessariamente não precisaria possuir algo de miserável além da sua própria condição efêmera humana). Portanto, ele veste mais uma venda, mais uma tentativa de não olhar pra si mesmo e o que ele realmente é, mas passa a continuar sendo aquilo que o Outro (Sim, em referência ao Outro de Lacan), deseja dele, e passa então a viver em uma visão cega do que o move, do que o confirma como sendo aquilo que ele mesmo não possui coragem para descobrir.

Então, passamos a viver em uma sociedade (análoga ao "Ensaio sobre a cegueira"), onde vendados tentamos dar sentido as nossas vidas dando sentido as vidas alheias e obtendo delas também algum sentido.

Elizabeth Roudinesco me influencia aqui, quando em seu livro "Por que a Psicanálise" trás a nós a reflexão de que o homem moderno passou a aceitar a "individualidade" para substituir o peso de suportar e sustentar a sua própria subjetividade (a falta das vendas, o desvendar), quando insiste que o homem não mais é guiado pela tentativa de tomar consciência de suas contingências e de suas questões inconscientes, pois (aqui tomo a liberdade de continuar o pensamento segundo a minha percepção), tem medo de descobrir-se, pois o Outro a ele não ensinou a importância de tal feito.

Vivemos a época em que é bonito não se conhecer, mas seguir gurus atrás de gurus, ideias atrás de ideias, que no final, são um barulho a tentar esconder o grito de nossa subjetividade que nos adoece enquanto está vendada.

Desvenda-se de suas cegueiras "propositais", talvez encontrará muitas dificuldades, mas assim serás sujeito de suas próprias vontades e desejos e não das demandas alheias, e assim talvez terá algum sentido, além de buscar o sentido do outro.

Ivan Martins - Psicanalista.

Na imagem abaixo, o filme Bird Box, em que a protagonista se vê diante da obrigação de guiar os demais (sua família), sem enxergar, pois há uma eminência de monstros que assolam os humanos se fizerem barulho ou os virem. Aqui faço uma rápida reflexão: Não seria o Outro, uma forma de alien a qual tememos, um monstro que temos medo que nos escute falando quando quisermos e o que quisermos, e para agrada-lo vendamo-nos de nossos desejos e manter o laço de aceitação que ele nos obriga a manter?

 

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