ELISABETH ROUDINESCO: ‘PSICANALISTAS DEVEM SE ADAPTAR AO COACHING E TERAPIAS CURTAS

Ricardo Dih Ribeiro

Ricardo Dih Ribeiro Publicado 11/10/2021 



A psicanalista Elisabeth Roudinesco é uma reconhecida intelectual na área da história e da psicanálise, com presença ativa em publicações científicas e na imprensa. É graduada pela Sorbonne, com especialização em linguística, e com mestrado e doutorado pela Universidade Paris VII.

Transformou a complexa doutrina freudiana em matéria-prima para best-sellers, como a “Dicionário da Psicanálise”, “História da Psicanálise na França” a biografia “Jacques Lacan”. Ano passado esteve no Brasil para lançar “Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo” (editora Zahar).

Esteve aqui pela primeira vez em 1999 quando participou do Programa Roda Viva, e voltou recentemente para participar do Fronteiras do Pensamento.

Desde 1999 Roudinesco tem falado sobre o perigo da destruição do conhecimento psiquiátrico pelo cientificismo exagerado que trata todos os pacientes da mesma forma.

Ela deu uma entrevista para Robson Viturino do site NEXO e foi bem objetiva ao dizer que ‘os psicanalistas devem se adaptar ao coaching e terapias curtas’.

Acredito que ela está certa e desde 2014 uso a Psicoterapia breve psicanalítica a partir da fixação de um limite de tempo e de um foco no processo, o que determina isso é a demanda do paciente e o acordo entre nós dois, o que de certa forma o torna vagamente parecido com o Coaching que conhecemos.

O Coaching como é apresentado atualmente, associado as mais diferentes nomes para turbinar a capacidade de quem o apresenta, não passa de uma autoajuda reditada.

O coaching deveria ser não apenas um trabalho cognitivo comportamental, repleto de técnicas e de rituais motivacionais, mas sim um processo de autoconhecimento.

Nesse ponto existe a possibilidade de cruzamento entre a psicanalise, enquanto psicoterapia breve, e o coaching.

A psicanálise é algo extremamente elitista. Fazer análise por hora, ao preço praticado, é impossivel para a maioria das pessoas queassim não podem se beneficiar dela.

As possibilidades oferecidas pela psicanálise são imensas e talvez, através da sua atualização ela possa ter um maior alcance.

Roudinesco diz que no Brasil, todos os cursos de psicologia são dominados pela psicanálise,pois os brasileiros são muito ecléticos. Eles compreenderam que, hoje em dia, as pessoas não querem mais fazer análises longas. Por isso, se adaptaram a essa nova demanda dos pacientes.

Em entrevista ao site da NEXO respondeu algumas perguntas, que decidi postar integralmente, citando a fonte.

Diante da dificuldade em ocupar espaço frente à psiquiatria e à terapia cognitivo-comportamental, qual é o espaço possível para a psicanálise?

ELISABETH ROUDINESCO Penso que os psicanalistas erraram, porque não se adaptaram às mudanças. Os psicanalistas devem se adaptar a novas formas de terapia, como coaching e terapias curtas… Isso é diferente da terapia comportamental. Podemos dizer que o cognitivismo e a psiquiatria têm sido ensinados na academia, mas, na realidade, os pacientes têm procurado diversos tipos de tratamento. Hoje até a autoajuda é importante. Além disso, há poucos terapeutas comportamentais. As ideias cognitivistas são ensinadas nos cursos de psicologia e isso dá a impressão de que algo é expressivo, mas na verdade elas não são tão frequentes assim.

Nos últimos meses foi reaceso o debate entre psicanalistas e neurocientistas. Isso começou quando um neurocientista muito importante disse que a psicanálise é um mero exercício estético e foi totalmente superada pela neurociência.

ELISABETH ROUDINESCO Isso é uma polêmica no mundo todo. No fundo, a psicanálise não é uma ciência. As neurociências sim estão mais do lado das ciências…

Mas não existe um diálogo possível?

ELISABETH ROUDINESCO Não, não há diálogo possível. É uma ilusão, porque não estão falando da mesma coisa. Aliás, isso é uma ilusão de nossa época. Nós achamos que podemos estabelecer pontes entre as coisas. Mas aqueles que lidam com neurologia se recusam à psicanálise. Bom, a questão do progresso só existe na ciência. Na psicanálise, não é a mesma coisa, não existe um progresso: existem transformações, críticas internas, mas é um movimento autônomo. A psicanálise está no campo da filosofia. Então, esse debate com neurocientistas é uma bobagem. Eu já debati muito com adeptos da questão do cérebro, e nós realmente não temos nada a nos dizer. Quando o psicanalista tenta se introduzir nesse tipo de debate, o debate é estéril, pois não estamos falando do mesmo inconsciente. Mas eu sei que é um debate contemporâneo. Há 30 anos, o que se discutia era se a psicanálise era compatível com o Marxismo…

Como vê o fato de as tecnologias estarem absorvendo tanto da energia e das atenções das pessoas no nosso tempo? Existe até um neologismo para falar da nossa obsessão em aparecer nas mídias sociais: midiopatia.

ELISABETH ROUDINESCO Bom, é melhor isso do que usar drogas. Eu acho isso muito bom. Os efeitos perversos e negativos são justamente que as informações não são confiáveis, às vezes são delírios, mas o fato de estar conectado é melhor do que ser alcoólatra ou toxicômano. Eu sou conectada, todos nós somos. Claro que existem excessos, exageros, mas isso vai acabar passando. Mas eu acho que não há volta, vai ser preciso se adaptar a isso.


André Kummer

Psicanalista —

 

Voltar ao topo